sábado, 14 de junho de 2008

Artigo sobre Linguagem de Rua, Prof. Israel

Linguagem, Discurso: forma de expressão (e de protesto)
Prof. Israel Fonseca Araújo(*)

1. Considerações Primeiras

Neste momento de nossa relação sócio-cultural/político-ideológica quero imprimir a nossa Uma Croniquinha de Linguística um formato de artigo, cuja argumentação – você já sabe – será bem propedêutica, introdutória – e superficial. Sim: há uma relação interpessoal entre este Croniquista e você, leitor/leitora de meus textos do “Miriense” e dA Folha! E é por esse motivo que peço a sua permissão para mudar a “cara” daquela que seria Uma Croniquinha sobre a linguagem das ruas. O que pretendo é, basicamente, discutir dois enunciados que encontrei em ruas de nosso “Miri”, um em dezembro/2007 e outro em 23/05/08, à luz dos Estudos Lingüísticos. São, sim, análises superficiais, mas se bem lido o presente artigo poderá contribuir de alguma maneira para a nossa vida pública, e não só com professores/as, e nem só de português!.
Antes de passar às análises prometidas, devo ressaltar que se trata (em parte) de uma crônica, porque se refere a um evento de nosso cotidiano, o uso “popular” da linguagem dentro da vida pública, e porque o comenta. Também, que é “de Linguística” porque se refere a um estudo provisório de uma (digo, duas) manifestação da língua – considerada, aqui, enquanto uma forma de interação humana, não como “um instrumento externo de comunicação, de transmissão de informação”, mas como “uma forma de atividade entre dois protagonistas numa atividade interlocutiva” . Por fim, falo em linguagem porque se trata de uma manifestação humana de interação entre semelhantes – aqui, verbal, portanto, objeto de estudo da Linguística; quanto à/o (Análise do) Discurso, digo que se trata de uma (quase) primeira aproximação acadêmica, haja vista que já a vivenciamos (todos/as) nós diariamente, mas, talvez acima de tudo, estou visualizando duas formas de expressão e de protesto tipicamente humanas (todos os grifos são meus). Logo, trata-se de uma escritura marcada pela diversidade, num transito que vai da crônica ao artigo, embora por mim definido com sendo este último. Desde já ressalto que se trata de uma manifestação acerca da linguagem escrita, mas num formato que beira ao hibridismo.

2. Análise do Discurso & Linguagem: um ensaio de aproximação “teórica”

Considero, neste texto, a linguagem enquanto uma forma, um mecanismo de interação social, e de interação humana, acima de tudo, uma vez que é através da linguagem que nós, humanos/as, nos fazemos entender diuturnamente.
Costumamos fazer uma breve e arriscada distinção, com mera finalidade didática, entre a linguagem verbal (que utiliza o código lingüístico, o verbo, a palavra, que é objeto de estudo da Linguística) e a linguagem não-verbal (que se vale de outros muitos códigos não-verbais, como é o caso dos acenos, das placas de trânsito, dos asso(b)vios dos recursos expressivo-faciais...). A linguagem humana passa a ser estudada cientificamente a partir de Ferdinand Saussure (fins do séc. XIX, início do XX – o Curso de Linguística Geral, desse genebrino vem a lume em 1917, obra póstuma, graças às anotações de sala aula de alunos seus). Linguagem, em suma, “como um processo de interlocução”, como um “ponto de encontro” entre a pessoa que fala/escreve e a que lê/ouve, locutor/a e alocutário/a, para usar uma definição mais técnica.
No que diz respeito à Análise do Discurso (AD), ressalto que se trata de uma disciplina acadêmica, correlata à Linguística. Uma ciência, ou ramo de estudos através do qual se interseccionam a Linguística e outras ciências “sociais”. Podemos dizer que a AD se “estrutura no espaço que há entre a lingüística e as ciências das formações sociais”. Ou: que a AD “propõe um deslocamento das noções de linguagem e sujeito que se dá a partir de um trabalho com a ideologia. Assim, passa-se a entender a linguagem enquanto produção social”. E, para nocionar um pouco mais este campo teórico: “A AD nos permite trabalhar em busca dos processos de produção do sentido e de suas determinações histórico-sociais” .
Destaquei intencionalmente a relação linguagem e sujeito, em virtude de a análise que farei dos enunciados incidir nesses dois pontos: a linguagem, elemento usado para a interação humana (a verbal, neste texto) e o sujeito, aqui entendido como aquele que usa a linguagem (verbal) como mecanismo a serviço de sua necessidade de expressão, de protesto. Ou como o “Resultado da relação com a linguagem e a história”, uma vez que “o sujeito do discurso não é totalmente livre”. “O sujeito é constituído a partir relação com o outro” (INTERNET, 2008).
Não obstante estas tentativas de definições, quero deixar claro que o que faço aqui são aproximações de “olheiro” e não uma tessitura textual à moda de um emaranhado de discursos (linguagens) teóricos, acadêmicos. Embora em alguns momentos sejam feitas algumas incursões em estudos mais “técnicos”, o que tenho em primeiro plano na minha imagem de receptor é o leitor/a “comum”, ou seja: o/a não-especialista.

3. Os dois enunciados

(3.1.) “PRFFEITA, TAPE SEU BURACO”
(3.2.) “PREFEITA mande o seu secretário limpar a CAGADA que ele fez nesta rua, caso aucontrário 3 DE OUTUBRO VEM AÍ” (as palavras que eu negritei estavam escritas numa cor diferente e em destaque, nas placas onde eu encontrei tais enunciados).
Duas notas: quanto ao enunciado (3.1.), ressalto que ele estava grafado numa tábua velha, trecho da Rua “Pe. Emílio”, passando o Estádio Municipal “O Açaizão” e antes dos muros da Escola “Raimundo Emiliano Pantoja”, mês de dezembro de 2007, época chuvosa no “Miri”, numa parte dessa rua que, naquele momento, estava quase intrafegável. Subentendo que populares fizeram uma obstrução à passagem de carros, naquele trecho, uma vez que vi troncos de árvores e outros recursos dessa natureza sendo usados naquele contexto de proposto.
No que diz respeito ao enunciado (3.2.), ressalto que o li no dia 23 de maio de 2008, bem atrás do Prédio da Câmara, naquela Rua que passa pela frente da Igreja Betânia (onde tem alagado várias vezes, neste ano de 2008, ao chover um pouco mais!), dia do Aniversário da Cidade de Igarapé-Miri (112 anos), também numa tábua velha e em letras garrafais. As duas transcrições foram feitas ipslitere.

4. Tentativas de leitura

Agora quero explicar em que centrarei a minha lupa analítica, já que os dois enunciados dão margem a uma série de considerações. No que diz respeito ao (3.1.), não podemos deixar de ressaltar a relação protesto vs sexualidade/promiscuidade (?!). E, no outro (3.2.), a relação eliminação de excrementos vs política partidária.
Quanto ao primeiro enunciado, não me custa nada afirmar que todo e qualquer cidadão/ã tem o pleno direito de reclamar do Poder Público (mais imediatamente, em nosso caso, da Prefeitura) melhorias para a sua qualidade de vida, já que o/a Prefeito/a é, na verdade, um servidor/a da população; é uma pessoa legal e democraticamente investida pela população numa função pública que só existe porque é necessário que uma pessoa administre o Município (não só a cidade). Sua função é executora, articuladora e, talvez acima de tudo, planejadora. Coisa parecida se diz do Vereador/a, que tem a função de legislar, de fiscalizar a aplicação dos recursos públicos por parte do Executor/a: ou seja, a função deste/a não é de andar debaixo do braço daquele/a, nem a de ficar dizendo “amém” pra quem gesta. Tem, sim, os populares o direito de cobrar, de forma responsável, coerente, respeitosa. Mas deve haver limites no uso dessa prerrogativa popular, sustento eu. Não dá para dizer “qualquer” coisa.
O enunciado (3.1.) carrega em si uma forte apelação sexual, numa conotação vulgarizada, em que a ambigüidade presente nessa frase deixa implícita uma (provável) tentativa de atingir, pelo prisma da sexualidade, uma figura pública, nesse caso a Prefeita Dilza Pantoja. Ambigüidade diz respeito ao fato de um termo (palavra, frase) poder significar, lingüisticamente, mais de uma coisa, dentro de determinado contexto de interação lingüístico-social. Fica aqui a pergunta se o direito de cobrar, de exigir, não deve ser norteado pelo respeito ao outro.
Já quanto ao (3.2.), digo que a “coisa” fedeu. Nele, a prerrogativa de se manifestar publicamente (mesmo que de forma anônima, como é o caso dos dois enunciados por mim encontrados) “baixou o nível”. O uso da linguagem verbal por esse/a sujeito (ou vários/as) beirou ao baixo calão.
Mas quero tecer mais algumas notas explicativas. Primeiramente, parece que alguém está mandando um recado atrevido à Gestora de nosso Município, “solicitando” que ela use de sua autoridade para exigir de um auxiliar seu (“o seu secretário”, de Obras Públicas, creio eu) a realização de uma tarefa pública que, em tese, só ele poderia fazer (“limpar a CAGADA que ele fez nesta rua”). Em segundo lugar, fica implícita uma condição à Gestora, que seria um provável prejuízo eleitoral nas Eleições de 5 de outubro! Isso mesmo: a pessoa se enganou/naram, já o dia de depositar o voto na urna eletrônica é 5 de outubro deste ano e não 3 de outubro, como dizia a placa.
Terceiro, o recurso de apelar ao quesito Eleições é uma tática popular que (infelizmente) ainda muito se faz aqui no “Miri” (Sei que não é só por aqui!). Se a rua, com a “CAGADA”, traz prejuízos eleitorais, então podemos dizer que, em aquela sendo limpa, haveria lucro eleitoral?! Não seria “só” uma obrigação de quem foi legal e coletivamente empregada/o para fazer esse trabalho?! Quarto, por que não se disse “mande o seu secretário limpar a” – SUJEIRA ou IMUNDICE – “que ele fez nesta rua”?! E, por fim, pessoas mais atentas observaram que, ao invés de se escrever ao contrário (ou caso contrário, somente, o que soaria melhor), a forma verbal ficou assim: “aucontrário”. Trata-se de uma escrita diferente daquela que é exigida pela Norma Padrão do Português, pela Gramática Normativa, que diz sobre o que é “certo” e sobre o que é “errado” na língua. Imagino que pessoas não-bem intencionadas andaram debochando dessa escritura, devem de ter feito caçoada desse linguajar e, sem dúvida, de quem escreveu. Por quê? É simples: essa forma de uso da língua não goza de prestigio social, é uma manifestação desvalorizada, como desvalorizada sócio-culturalmente é a pessoa, em nosso País, que fala e/ou escreve desse jeito ou doutros, como: buto, buca, fuguista, canua cheia de mapará de prua a prupa.
Vejamos, acerca desse desprestígio, Marcos Bagno (diz-se “Bânho”): “Os brasileiros letrados não só discriminam o modo de falar de seus compatriotas analfabetos, pobres e excluídos, como também discriminam o seu próprio modo de falar” (2000 - grifei).

5. Considerações de Despedida

A leitura e a análise (superficiais) desses dois enunciados puderam demonstrar o quanto as nossas ruas, com as suas linguagens, com suas manifestações públicas, são ricas culturalmente – e não só no que concerne ao código lingüístico, aliás. Mostrou, também, a possibilidade de se fazer a desconstrução do que está escrito em nossas vias públicas, haja vista que o público (a rex pública, a “coisa pública”) é de todos/as nós. Destaco, finalmente, nesses dois eventos textuais, a coragem do povo no sentido de dizer, verbalmente, um basta a certas coisas que – ano após ano – continuam teimando em se fazer presentes aqui no “Miri”, mesmo que através do anonimato, pois ninguém por lá assumiu a autoria dos escritos. Enfim: foi de suma relevância fazer essas tentativas de (re) leituras da fala de nossas ruas (nem que seja “só” pra mim!).

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Importante:
Este artigo deverá ser publicado no Jornal Miriense, em duas partes, sendo a Primeira na edição de junho/08 e a Segunda, na de julho/08.

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